Apresentação Profala

Apresentação:

O Grupo de pesquisa PROFALA é coordenado pelas Profa. Maria Elias Soares e Maria do Socorro Silva de Aragão, que vinha trabalhando, anteriormente, na criação de um Laboratório de Análise da Fala, com equipamento financiado pelo CNPq/FUNCAP. Essa parceria teve como objetivo geral a implantação de um sistema baseado em tecnologia da informação para análises e aplicações à língua falada e ao discurso e permitiu o treinamento de pesquisadores para o uso de programas específicos para a análise de diferentes aspectos da linguagem: os programas para análise de Léxico e Terminologia, como o Tool Box, o Lexique-Pro; e o VARBRUL, para análises de variação linguística, entre outras ferramentas e softwares.
Atualmente, graças aos esforços deste projeto, alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado podem acessar os arquivos em áudio, disponibilizados on-line, para realizar estudos histórico-comparativos da língua portuguesa, nos seus aspectos fonológicos/entoacionais, morfológicos/lexicais, sintáticos, semânticos/pragmáticos, e também sociodiscursivos. Na equipe do projeto ora proposto estão pesquisadores que trabalham em conjunto com o Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará, na investigação de padrões recorrentes de aprendizagem de idiomas maternos e estrangeiros. O projeto “Dinâmica e Topologia de Redes Complexas com Aplicação em Processos Cognitivos” estuda o movimento ocular nas tarefas de aprendizagem de novas palavras que obedecem ao mesmo padrão fonotático das palavras do idioma materno dos participantes. Neste projeto, está em curso uma experiência de dois departamentos, a saber, o Departamento de Letras Vernáculas e o de Física, no uso compartilhado de um equipamento que registra através de uma câmera infravermelha o movimento ocular. A aquisição do EEG/PE, neste caso, será fundamental para o cruzamento de dados gerados por dois equipamentos, o que permitirá fazer inferências mais precisas sobre o processo cognitivo de aprendizagem/produção da linguagem.
O grupo propõe a implementação de pesquisas que visem à descrição da língua portuguesa em diferentes perspectivas, levando em conta a necessidade da utilização de corpora existentes na UFC, para análise das variações fonéticas, léxicas, morfossintáticas, semânticas e discursivas e sua aplicação ao ensino-aprendizagem de língua portuguesa e de línguas estrangeiras, uma vez que a coleta de amostras de fala possibilita a descrição vertical socialmente estratificada das diversas camadas populacionais de zona urbana e rural do Ceará e permite implantar um sistema baseado em tecnologia da informação para análise e aplicação a estudos de diversos aspectos da língua falada e do discurso. Um dos projetos em andamento trata da fala do Ceará sob os pontos de vista fonético, lexical, morfossintático, semântico-pragmático e textual-discursivo. O segundo propõe um estudo exploratório sobre as variedades do português falado em Portugal e nos países africanos de língua oficial portuguesa (os PALOPs), Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, como também no Timor-Leste, com o objetivo de realizar um levantamento que permita planejar uma pesquisa mais aprofundada da situação do português africano, no sentido de flagrar as diferenças em relação à língua falada no Brasil e, mais que isso, discutir a afirmativa de uma pretensa unidade dessa língua e refletir sobre a atitude de seus falantes frente à língua portuguesa, notadamente quanto à construção das representações dessa língua, como língua materna e não materna, língua oficial e língua nacional. O resultado desse tipo de pesquisa poderá oferecer subsídios para a discussão de uma política linguística para a difusão e o ensino da língua portuguesa em todos os níveis, para a elaboração de textos didáticos, paradidáticos e de material de apoio à formação de professores, com base na realidade dos alunos da pré-escola, da educação básica e superior, bem como possibilitará a assessoria a órgãos de comunicação de massa e de criação de tecnologias de análise e processamento de fala.
Considerando o contexto internacional atual, faz-se necessário reconhecer a dimensão política da língua e sua relevância para a economia para que haja uma reflexão no sentido de se estabelecer objetivos claros e de se desenvolver estratégias adequadas para alcançá-los. Nesse contexto que se faz oportuno falar de Política Linguística. O termo se aplica habitualmente ao uso e difusão da língua principalmente em dois contextos: 1) língua como veículo de escolarização de comunidades que a utilizam como língua segunda; 2) língua como referência sociopolítica e cultural nos espaços em que é língua estrangeira (MATEUS, 2002).
É uma questão de política linguística o estabelecimento por parte do Estado de uma planificação linguística que promova a adoção e a promoção de uma determinada língua, bem como da necessidade de aprendizagem e uso de uma língua oficial como obrigação para os cidadãos. Sem nos aprofundar em reflexões como “uma língua, uma nação” e evitando a totalização cultural, consideramos neste projeto a preservação das diferenças por trás da ideologia da “língua única”.
Nesse sentido, esta pesquisa pretende investigar as variedades do Português falado em diferentes países que tem essa língua como oficial. Para além dos processos de colonização linguística portuguesa no Brasil e em países da África, convém considerar o processo de descolonização que imprime as diferenças e considera a historicização da língua, ou seja, que ela é feita por angolanos e para angolanos, por são tomeenses e para são tomeeenses, angolanos e assim por diante (ORLANDI, 2009).
Essa perspectiva conduz inevitavelmente a reconstrução e redefinição do que vem sendo considerada “lusofonia”, a investigação em torno de políticas linguísticas de difusão do Português em Portugal e nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOPs), à focalização das formas de Português faladas na África, observando as semelhanças e diferenças entre diferentes níveis linguísticos (fonético-fonológico, lexical e morfossintático) com o “Português Brasileiro”.
Várias razões justificam a realização desta pesquisa que são: a (re)significação da complexa noção de “lusofonia”, considerando a ideia de língua dominante reapropriada pelo dominado, a construção de um banco de dados do português falado nos PALOP, a composição de um panorama sociolinguístico do português falado nos PALOP, o desenvolvimento de estudos contrastivos entre as diferentes variedades do português falado,  dentre outras.
Este projeto situa-se dentro da área da Sociolinguística, seja pela análise dos fenômenos variáveis do português, seja pela compreensão de que os estudos de política linguística se constituem um campo de pesquisa dentro desta área. Contudo, esta pesquisa pretende dialogar com a Linguística Textual e a Análise do Discurso, na medida em que nos fornece a articulação necessária entre língua e história e com a Lexicografia, na medida em que nos debruçaremos sobre o léxico utilizado por usuários do Português em Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, dentre outros países. Essas articulações enriquecem a pesquisa, pois permitem que investiguemos as variedades linguísticas do português em países de língua oficial portuguesa sob diferentes perspectivas teóricas.
Ao se mencionarem os benefícios trazidos por uma política de língua aos falantes, deve-se atentar para a importância do papel da variação no processo de ensino-aprendizagem, sobretudo, quando se está diante de um contexto multilíngue e quando se trata de alunos, como os africanos e timorenses, que entram em contato com a língua portuguesa apenas a partir do início da escolarização (MATEUS, 2009).
A presença da língua portuguesa em países multilíngues desempenha uma função de extrema relevância sociocultural. Isso não se restringe apenas à capacidade de os falantes de línguas nacionais se comunicarem com os países estrangeiros, mas também, à possibilidade do português funcionar como língua-ponte entre culturas e línguas, estatuto que só se atinge quando os países que partilham a mesma língua cooperam entre si (MATEUS, 2009).
É urgente que se crie um ambiente favorável à investigação sobre a língua, com as condições necessárias para construir instrumentos indispensáveis à sua difusão, tais como dicionários, terminologias, gramáticas etc. (MATEUS, 2002). Uma das estratégias para a construção desses instrumentos pode ser a organização de corpora de fala ou de escrita – tarefa indispensável para o desenvolvimento de estudos não só de natureza sociolinguística, mas psicolinguística, gramatical e mesmo textual e discursiva, sob a perspectiva teórica ou aplicada. Esta tarefa, entretanto, só vem tomando corpo recentemente. Os primeiros estudos sobre o português falado no Brasil, por exemplo, foram desenvolvidos fora do meio universitário, influenciadas pelo debate em torno da língua nacional e pelos trabalhos de Antenor Nascentes. As contribuições dessa fase revelam erudição sobre os fatos da língua, quase sempre com uma preocupação de cunho prescritivista.
A Linha de Pesquisa Descrição e Análise Linguística, do Programa de Pós-Graduação em Linguística, vem abrigando projetos de grande importância para a área, a exemplo do Projeto ALiB (Atlas Linguístico do Brasil), o projeto O Português Não Padrão de Fortaleza e o Projeto ELOC – O português não-padrão do Ceará, coordenados pela autora. A esses projetos se vinculam vários projetos de dissertação de alunos e projetos individuais e coletivos de professores, com diferentes enfoques, que podem interessar a outras linhas de pesquisa, uma vez que os corpora são uma fonte ilimitada de dados para estudos os mais diversos.
O tratamento desses corpora e a disponibilização de dados confiáveis para a pesquisa ainda enfrenta vários problemas, desde os teóricos e metodológicos até aqueles que dependem de tecnologia. Do ponto de vista metodológico, no caso dos corpora de fala, é notória a queixa de que as transcrições não são muito confiáveis, uma vez que dependem da percepção, da atenção e do ouvido humano. Desse modo, podem ser perdidos dados importantes, sem os quais uma dada análise pode ser inviabilizada. Outro problema decorre do tipo de análise que pode ser feita a partir dos corpora. Estudos sobre acento, pausas, tonicidade, variação fonética e fonológica, entonação, tempo de processamento, estratégias de processamento, entre tantos outros temas, podem ser tratados com mais rigor desde que se disponha de equipamentos e softwares adequados, o que ainda não é prática muito usual em Linguística.
A composição e disponibilização de corpora do Português falado em países da África, no Timor Leste, no Brasil e em Portugal tem-se constituído objeto de interesse dos linguistas que se preocupam, por exemplo, em organizar fontes de consulta para o estudo da língua falada (cf. BACELAR DO NASCIMENTO, 2001). Através deste projeto, pretendemos compor um corpora com entrevistas de informantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. As contribuições que esse levantamento fonético-fonológico, semântico-lexical, morfossintático e pragmático pode dar são muitas, dentre as seguintes: ampliar o campo de informações sobre os estudos do português falado em países de língua oficial portuguesa, oferecer subsídios para o ensino/aprendizagem do português como língua estrangeira e como segunda língua, descrever a realidade linguística do Português na África e permitir estudos contrastivos entre essas variedades e o português brasileiro.
Estamos propondo uma nova etapa da pesquisa em que se dá a denominação mais ampla de Variação e processamento da fala e do discurso: análises e aplicações (PROFALA), com um projeto que propõe, neste primeiro momento, um estudo exploratório sobre o português falado nos países africanos de língua oficial portuguesa (os PALOPs), especialmente, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, incluindo-se também o Timor-Leste.
Neste caso, tem-se como objetivo realizar um levantamento que permita planejar uma pesquisa mais aprofundada da situação do português africano, no sentido de flagrar as diferenças em relação à língua falada no Brasil e, mais que isso, discutir a afirmativa de uma pretensa unidade dessa língua e refletir sobre a atitude de seus falantes frente à língua portuguesa, notadamente quanto à construção das representações da língua portuguesa, como língua materna e não materna, língua oficial e língua nacional. Em nossa experiência com a recepção de estudantes oriundos dos países citados acima, deparamo-nos, tanto da parte desses estudantes, como dos professores, com a afirmativa de que há dificuldades de intercompreensão, não só no que diz respeito ao léxico, mas também em relação a outros aspectos da língua.
Vários estudos têm sido empreendidos sobre o Português na África como o de Gonçalves (1991) que estuda a estrutura argumental dos verbos no Português de Moçambique; o de Oliveira (2001) que verifica os marcadores discursivos em enunciados de Moçambique em Português; o de Petter (2008) que examina o léxico de origem portuguesa ou africana pertencente ao vocabulário comum do português brasileiro, português angolano e português moçambicano, buscando destacar convergências e divergências na forma e na interpretação semântica.
Sem a intenção de sermos exaustivos na descrição das pesquisas realizadas, podemos afirmar que um aspecto que diferencia a presente pesquisa das citadas anteriormente está na relação que se buscará estabelecer entre políticas linguísticas e os usos das variedades do português falado na África e na Ásia. Partimos, por exemplo, da compreensão de que a composição e disponibilização de corpora do Português falado na África e na Ásia se constitui como um instrumento que visa fomentar os estudos da língua portuguesa, buscando o fortalecimento da língua com vistas à sua preservação e difusão.
Os resultados advindos da pesquisa que ora se propõe podem ser muito positivos não só para a descrição e o conhecimento da língua falada atualmente no Brasil, mas, principalmente, poderão ser utilizados para estudos comparativos com outras variedades do português, além da aplicação para o ensino desta língua, especialmente na alfabetização e no ensino fundamental, mas, também, no ensino médio e superior. Não se deve esquecer a significativa contribuição que pode ser dada para a tomada de decisões no âmbito das políticas linguísticas no Brasil e de políticas para a difusão e ensino da língua portuguesa, seja como língua materna, como língua não materna (nacional ou oficial) e como língua estrangeira, bem como a possibilidade de prestar assessoria a órgãos de comunicação de massa e de criação de tecnologias de análise e processamento de fala.